Sentia-se velho, cansado, sem forças para continuar procurando meios de convívio com aquelas pessoas tão diferentes.
Em mais um fim de ano, pela primeira vez em casa desde muitos e muitos anos em diversos lugares diferentes, pôs-se a pensar no que poderia servir de novo estímulo, de novo gás, para enfrentar mais do mesmo.
Pensava no que vinha fazendo bem em tempos recentes e não podia deixar de sentir, na música, uma salvação, uma fonte de inspiração e até um valhacouto para os momentos de árdua luta contra a vontade de fugir, jogar tudo pro alto e tentar tudo novo, diferente, sem amarras.
Sentia que tudo se relacionava entre si, tudo era o mesmo, o mesmo era tudo. Sem dúvidas, compreendia o que olhar alcançava. A sensação de ser ao mesmo tempo perdido, perturbado, mas igualmente senhor da compreensão e de um notável saber a respeito do porquê todo mundo, o tempo todo, correr tanto atrás de satisfação pessoal, trazia um certo desconforto. Era um desconforto aparentemente confortável, na verdade, pois tudo não passava de uma linha de ecograma, tudo, no fundo, se traduzia no plano simples em 2D de uma linha daquelas nas telas dos equipamentos médicos nos filmes: picos, flat, downs... peep... picos, flat, downs...
Mas o que mantinha a tal linha viva?
O que, afinal, nos faz vivos?
Pouco tempo antes disso o jovem idoso já tinha sentido a vida no amor. Aceitara, gostara da sabedoria presente no mais básicos dos clichés humanos, esse de que all is love, love is all. Tudo bem. Estava vivo, então. Como um pé de abacate, talvez. Vivo, dando frutos, pronto para semear e fazer a roda da vida girar. Mas... inerte.
Como sair da inércia?
Como, onde, encontrar um mecanismo capaz de ir além de simplesmente manter vivo esse organismo?
Como dispor, como brincar, como libertar para viver intensamente a sua alma?
Entendera, naquele instante, que a arte dá vida à alma. A arte deixa a alma viver!
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